E disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo, a orar; um fariseu, e o outro publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.

Lucas 18. 9 -14

[Ref.: Gn 3.8-13; 4.8-10 / Sl 1.1-3; 51 / MT 5.23,24; 6.12,13; 26.41 / Rm 7.14-22]

Na ilustre obra de Victor Hugo, “O Corcunda de Notre Dame / Notre Dame de Paris”, entre os 4 personagens principais aos quais somos apresentados, o arquidiacono Claude Frollo, é certamente um complexo e perturbado antagonista, cheio de dilemas. O problema real de Frollo estava muito além de mero fanatismo religioso, ele era de uma autonomia incomum, “dono” de sua própria razão e senso de justiça (o típico dilema do “herói” de sua própria história), crendo ser um servo “justo e bom”. Ao conhecer a cigana Esmeralda, se apaixonou pela primeira vez, pondo em choque uma estranha fobia que tinha por mulheres, e em cheque seus votos religiosos e “índole”. Sendo rejeitado algumas vezes por ela e cobrado por sua religiosidade, ensandecido, Frollo atribuía ela a culpa da tentação (e qualquer outra bestialidade futura que cometeria contra Esmeralda), dando como ultimato algo como “ou fica comigo ou morre”!

Frollo, aqui, é como o fariseu da parábola da oração que Jesus menciona, seu orgulho, arrogância e hipocrisia o cega de sua natureza carnal ao exaltar feitos e não ver pecado em si, e ainda assim fazer questão de apontar prováveis pecadores segundo seu consenso e se comparar a eles. Já Quasimodo, seu “afilhado”/servo por pena, facilmente se enquadra como o publicano, pois é humilde, bom e reconhece quando está ou acha estar errado.

Reconhecer e aceitar o erro, o pecado, é algo verdadeiramente sensato e admirável, mas como pudemos ver através do “exemplo” acima, que nem todo mundo consegue alcançar isso com facilidade e por si só. Há muitos Frollos na sociedade, e até mesmo entre nós, cristãos, alguns lúcidos e cientes de seus erros, e outros já cegos por eles. Um compromissado cristão “velho de igreja” (ou nem tanto assim), deve tomar muito cuidado para não pender para esse lado, ele(a) tendo ou não, alguma responsabilidade em sua congregação.

Para uma melhor ambientação dessa problemática comum da culpa e o reconhecimento e arrependimento sobre a mesma, citemos aqui um comparativo com alguns exemplos bíblicos de personagens que souberam ou não admitir seus pecados e se arrepender deles depois:

AT: Saul (desobediência direta a ordens divinas o fizeram perder seu reconhecimento e autoridade como rei de Israel perante Deus) X Davi (arrependimento verdadeiro (após ser confrontado por Deus através do profeta Natã, por ter cometido adultério seguido de homicídio) o fez se quebrantar perante Deus, sendo fiel a Ele, mesmo ao arcar com as consequências de seus atos) [1 Sm 15.1-31 / 2 Sm 12]

NT: Judas Iscariotes (remorso tardio (foi se retratar com os fariseus apenas) e suicídio) x Pedro (arrependimento amargo e redenção) [Mt 27.3-5 / Lc 22.54-62]

Devemos sempre aprender a reconhecer, perante Deus, o pecado em nós (não tentar justificá-lo, nem mesmo delegar a culpa), confrontá-lo e rejeitá-lo e buscar em Cristo, o perdão, verdadeiramente arrependidos, para sermos lavados e remidos por Sua maravilhosa graça.